2. Viagem Cósmica
Noite adentro, a conversa fluía como cachoeira de verão. Não era bem uma conversa, todavia. O velhinho falava e eu o escutava. Ele sabia fazer mistério e atiçar a curiosidade do seu interlocutor. Eu acompanhava sua atuação nesse sentido. Dei um gole no meu copo de cerveja, pedi para ele esperar um momento e fui ao banheiro. Quando voltei o garçom abria outra garrafa, já lá iam tantas! Aproveitei o momento descontínuo para perguntar seu nome e ele disse que se chamava Eskobar, com “K”. Afirmei que tinha entendido com a cabeça, enchendo o meu copo e o dele e ele continuou a falar, estava começando a contar sobre o causo de que fazia tanto segredo na vida.
Prezados leitores, por um breve espaço de tempo, daqui em diante, Eskobar quem tomará conta das linhas protagonizando a história, personificado nas palavras que estão por vir, pois essas – isto é, as palavras que utilizei – foram prensadas pelos meus dedos no teclado do computador sob a inspiração causada pelo encontro fabuloso.
“Como eu dizia, a única pessoa pra quem contei foi minha esposa. Isso tudo vai lhe parecer uma fábula, uma coisa do mesmo tipo que uma historieta pra criança. Mas a verdade é que preciso lhe contar que eu já vi coisa maluca demais nessa vida, jovem amigo. Maluca mesmo! Vou tentar contar essa história do mesmo jeito que a história de um livro que adoro foi contada.”
“Eu acordei. Que lugar lindo, cara! Espírito Santo, 1976, povo todo pelado, calorão lascado! Ô época boa! Tinha dado um selinho muito carinhoso em Brisa. Baixei a sunga, saí correndo em direção ao mar. Nunca vou esquecer aquele dia, a temperatura da água estava ótima, morninha, dava pra ficar fácil boiando por horas. Acho que alguns peixes até me lambiam de vez em quando. Aquilo lá era integração pura com a natureza, cara. Puríssima! Não sei bem se tinha boiado por uns dez minutos ou dez horas. O sol já tinha pulado pro outro lado do céu, saí da água, Brisa me esperava com uma tanga, depois nós dois fomos para uma roda de amigos que ficava próxima de onde nós dormíamos, porque preferíamos ficar um pouco afastado, perto das dunas, gostávamos de um pouco mais de privacidade, Brisa levava meu violão, chegamos lá, sentamos entre Rui e Clara dum lado, Márcio e Vera do outro, peguei o baseado que me passaram, puxei, passei pra Brisa. O clima, o dia, as energias na área, tudo estava perfeito, jovem amigo. Começou a escurecer e a larica batia intensa, daí Brisa e eu fomos até a barraca de Vera, dividimos um lanche à base de pão, bolo e suco de laranja. Eu lembro tão bem disso! Jamais me esqueço disso!”
“À noite, em volta duma fogueira, lá na praia mesmo, Luciana, prima de Brisa, levou um balde cheio de cogumelinhos. Coisa boa! Ela falou que tinha misturado umas ervas do bem. Você sabe como era aquela época e tal, não sabe? Aquelas coisas eram comuns pra rapaziada como a nossa. Todo mundo fez a mesma coisa. Depois eu fui pra minha barraca com minha garota. No meio da noite comecei a ouvir uns barulhinhos. Não me incomodavam, mas eram estranhos. Saí da barraca pra ver o que sucedia.”
“Preste atenção, meu jovem amigo. Não vou dizer se acredito no que vi, em tudo pelo que passei. Vou sugerir pra você que eu fiz uma viagem astral ou algo do tipo; melhor do que isso, eu quero que você pense que tudo foi um sonho. Mas foi real! Algum lugar dentro da criação toda de deus, ou dos deuses, seja lá o que seja maior sobre a nossa existência e a de todas as coisas, algum lugar é o lugar que conheci. Eu fui transportado de alma e corpo para outro mundo. Outra dimensão, um universo paralelo, para dizer a palavra certa. Mas se acalme e me deixe continuar com a história. Andei no escuro. Entrei no meio dum punhado de árvores tentando encontrar o epicentro do barulhinho. Não conseguia ver nenhuma coisa direito, mas percebi que à minha frente havia um buraco e de lá vinha o barulho. Oras, se não fosse aquele galho maldito, ou bendito, que tivesse caído na minha cabeça, eu não teria perdido o equilíbrio, nem sido lançado pra dentro do buraco. Acordei de repente. Eu estava inteiro, sabe como é? Tinha muita saúde, vigor supremo, eu acho que tinha dormido por um bom tempo. Estava lúcido. Mas foi um perrengue. Quando acordei e abri os olhos já estava quase sufocando debaixo d’água. Fui pra cima com todo a força que eu tinha. Quando botei a cabeça pra fora vi onde eu estava, uma represa natural formada por uma queda d’água dum riacho, era fundo e não dava pé. Olhei para cima e meus olhos arderam com o forte sol no meio do céu. Nadei para a margem mais próxima. Quando saí completamente da água me joguei ao chão com a barriga pra cima. Ar puro! Eu ouvia todo tipo de som daquela natureza selvagem! Me senti vivaço. Ouvi um assobio, olhei pro lado e vi um senhor de idade sentado um tronco de árvore descascando uma laranja enquanto esperava algum peixe morder a isca da vara de bambu presa na lama da margem.”
“Quando sonhei, notei que havia feito uma viagem completa, ao menos com a construção perfeita do que sou, quero dizer, a idéia, incluindo a idéia do corpo. Andei até a beirada. Aquele senhor e eu estávamos no alto de uma montanha. A região poderia ser o sudeste de Minas Gerais, havia muitos morros pequenos e médios com o pico circular formando uma espécie de platô, e no centro deste havia uma cidade, um rio, e ao redor uma floresta imensa que desaparecia para além da vista. Em pontos distantes do horizonte, em vários ângulos, eu via outras localidades que achei que fossem cidades também. Na verdade, o que estou chamando de cidade, baseando-me naquela que eu via mais próxima da montanha de pedras onde eu me encontrava, deveria ser algo como uma pequena vila, ou nem isso. Mesmo no espaço ao centro da floresta, era difícil considerar aquilo um centro urbano, pois havia muitas árvores e as estruturas artificiais que eu avistava eram feitas de madeira. Pra chegar lá me custaria um esforço tremendo. Sentei numa pedra pra calcular a melhor rota, eu não sentia fome, nem sede, o clima era agradável, com tendência a esfriar à noite, o que me preocupava um bocado, mas não muito enquanto o sol sob a meia sombra duma árvore me mantinha aquecido.”
Deixo de lado as palavras do velhote Eskobar. Prefiro eu mesmo construir o resto da história que ele me contou. A coisa se complicou tanto que elaborei uma narrativa concisa para não me perder aos fatos. Tudo foi incrível. Se a experiência foi apenas um sonho, Eskobar teve o sonho mais bonito de todos, afirmo de pés firmes no chão!