Imagine

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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Imagine Uma Sociedade Alternativa

2. Viagem Cósmica

Noite adentro, a conversa fluía como cachoeira de verão. Não era bem uma conversa, todavia. O velhinho falava e eu o escutava. Ele sabia fazer mistério e atiçar a curiosidade do seu interlocutor. Eu acompanhava sua atuação nesse sentido. Dei um gole no meu copo de cerveja, pedi para ele esperar um momento e fui ao banheiro. Quando voltei o garçom abria outra garrafa, já lá iam tantas! Aproveitei o momento descontínuo para perguntar seu nome e ele disse que se chamava Eskobar, com “K”. Afirmei que tinha entendido com a cabeça, enchendo o meu copo e o dele e ele continuou a falar, estava começando a contar sobre o causo de que fazia tanto segredo na vida.

Prezados leitores, por um breve espaço de tempo, daqui em diante, Eskobar quem tomará conta das linhas protagonizando a história, personificado nas palavras que estão por vir, pois essas – isto é, as palavras que utilizei – foram prensadas pelos meus dedos no teclado do computador sob a inspiração causada pelo encontro fabuloso.

“Como eu dizia, a única pessoa pra quem contei foi minha esposa. Isso tudo vai lhe parecer uma fábula, uma coisa do mesmo tipo que uma historieta pra criança. Mas a verdade é que preciso lhe contar que eu já vi coisa maluca demais nessa vida, jovem amigo. Maluca mesmo! Vou tentar contar essa história do mesmo jeito que a história de um livro que adoro foi contada.”

“Eu acordei. Que lugar lindo, cara! Espírito Santo, 1976, povo todo pelado, calorão lascado! Ô época boa! Tinha dado um selinho muito carinhoso em Brisa. Baixei a sunga, saí correndo em direção ao mar. Nunca vou esquecer aquele dia, a temperatura da água estava ótima, morninha, dava pra ficar fácil boiando por horas. Acho que alguns peixes até me lambiam de vez em quando. Aquilo lá era integração pura com a natureza, cara. Puríssima! Não sei bem se tinha boiado por uns dez minutos ou dez horas. O sol já tinha pulado pro outro lado do céu, saí da água, Brisa me esperava com uma tanga, depois nós dois fomos para uma roda de amigos que ficava próxima de onde nós dormíamos, porque preferíamos ficar um pouco afastado, perto das dunas, gostávamos de um pouco mais de privacidade, Brisa levava meu violão, chegamos lá, sentamos entre Rui e Clara dum lado, Márcio e Vera do outro, peguei o baseado que me passaram, puxei, passei pra Brisa. O clima, o dia, as energias na área, tudo estava perfeito, jovem amigo. Começou a escurecer e a larica batia intensa, daí Brisa e eu fomos até a barraca de Vera, dividimos um lanche à base de pão, bolo e suco de laranja. Eu lembro tão bem disso! Jamais me esqueço disso!”

“À noite, em volta duma fogueira, lá na praia mesmo, Luciana, prima de Brisa, levou um balde cheio de cogumelinhos. Coisa boa! Ela falou que tinha misturado umas ervas do bem. Você sabe como era aquela época e tal, não sabe? Aquelas coisas eram comuns pra rapaziada como a nossa. Todo mundo fez a mesma coisa. Depois eu fui pra minha barraca com minha garota. No meio da noite comecei a ouvir uns barulhinhos. Não me incomodavam, mas eram estranhos. Saí da barraca pra ver o que sucedia.”

“Preste atenção, meu jovem amigo. Não vou dizer se acredito no que vi, em tudo pelo que passei. Vou sugerir pra você que eu fiz uma viagem astral ou algo do tipo; melhor do que isso, eu quero que você pense que tudo foi um sonho. Mas foi real! Algum lugar dentro da criação toda de deus, ou dos deuses, seja lá o que seja maior sobre a nossa existência e a de todas as coisas, algum lugar é o lugar que conheci. Eu fui transportado de alma e corpo para outro mundo. Outra dimensão, um universo paralelo, para dizer a palavra certa. Mas se acalme e me deixe continuar com a história. Andei no escuro. Entrei no meio dum punhado de árvores tentando encontrar o epicentro do barulhinho. Não conseguia ver nenhuma coisa direito, mas percebi que à minha frente havia um buraco e de lá vinha o barulho. Oras, se não fosse aquele galho maldito, ou bendito, que tivesse caído na minha cabeça, eu não teria perdido o equilíbrio, nem sido lançado pra dentro do buraco. Acordei de repente. Eu estava inteiro, sabe como é? Tinha muita saúde, vigor supremo, eu acho que tinha dormido por um bom tempo. Estava lúcido. Mas foi um perrengue. Quando acordei e abri os olhos já estava quase sufocando debaixo d’água. Fui pra cima com todo a força que eu tinha. Quando botei a cabeça pra fora vi onde eu estava, uma represa natural formada por uma queda d’água dum riacho, era fundo e não dava pé. Olhei para cima e meus olhos arderam com o forte sol no meio do céu. Nadei para a margem mais próxima. Quando saí completamente da água me joguei ao chão com a barriga pra cima. Ar puro! Eu ouvia todo tipo de som daquela natureza selvagem! Me senti vivaço. Ouvi um assobio, olhei pro lado e vi um senhor de idade sentado um tronco de árvore descascando uma laranja enquanto esperava algum peixe morder a isca da vara de bambu presa na lama da margem.”           

“Quando sonhei, notei que havia feito uma viagem completa, ao menos com a construção perfeita do que sou, quero dizer, a idéia, incluindo a idéia do corpo. Andei até a beirada. Aquele senhor e eu estávamos  no alto de uma montanha. A região poderia ser o sudeste de Minas Gerais, havia muitos morros pequenos e médios com o pico circular formando uma espécie de platô, e no centro deste havia uma cidade, um rio, e ao redor uma floresta imensa que desaparecia para além da vista. Em pontos distantes do horizonte, em vários ângulos, eu via outras localidades que achei que fossem cidades também. Na verdade, o que estou chamando de cidade, baseando-me naquela que eu via mais próxima da montanha de pedras onde eu me encontrava, deveria ser algo como uma pequena vila, ou nem isso. Mesmo no espaço ao centro da floresta, era difícil considerar aquilo um centro urbano, pois havia muitas árvores e as estruturas artificiais que eu avistava eram feitas de madeira. Pra chegar lá me custaria um esforço tremendo. Sentei numa pedra pra calcular a melhor rota, eu não sentia fome, nem sede, o clima era agradável, com tendência a esfriar à noite, o que me preocupava um bocado, mas não muito enquanto o sol sob a meia sombra duma árvore me mantinha aquecido.”

Deixo de lado as palavras do velhote Eskobar. Prefiro eu mesmo construir o resto da história que ele me contou. A coisa se complicou tanto que elaborei uma narrativa concisa para não me perder aos fatos. Tudo foi incrível. Se a experiência foi apenas um sonho, Eskobar teve o sonho mais bonito de todos, afirmo de pés firmes no chão!

terça-feira, 1 de março de 2011

Imagine uma Sociedade Alternativa

1. Trombada Cósmica

No quarto dia de Março de 2011 eu voltava para casa após ter comprado novos óculos escuros e um cachimbo de madeira. Desci no ponto de ônibus e andei até a esquina para atravessar a rua pela faixa de pedestres quando o sinal estivesse aberto. Numa ruela atrás de mim, com chão antigo de paralelepípedos, frequentada por poucos transeuntes, geralmente aqueles que iam até lá para fumar maconha, comer barato na pensão da Janaína ou fugir do agito estressante da cidade, vi um velhinho sentado na calçada. À sua frente havia um chapéu de couro posto de ponta-cabeça que servia como depósito para moedas. Ele não tinha calçados nos pés. Suas calças e camisa de algodão de manga cumprida estavam em frangalhos e visivelmente encardidas. O que me chamou a atenção, junto aquele corpo inerte de olhos brilhantes acima de uma barba cinzenta e desgrenhada, foi um lindo modelo de violão. Aproximei-me daquele senhor.
      - Esse violão foi feito artesanalmente, não foi? - perguntei.
      - Sim, foi sim – disse-me ele com uma voz rouca e grossa.
      - Achei esse modelo bem interessante. Posso ouvir a acústica dele? Quero dizer, se o senhor quiser tocar alguma coisa...
      - Mas é claro, meu jovem. Só que só me resta uma única corda. Veja!
      - Poxa, que pena. Amanhã vou ao centro e posso trazer um jogo de cordas pra você.
      - Valeu!
      - É de graça, não se preocupe – eu ri ao dizer isso, talvez ele tivesse pensado que eu cobraria alguma coisa. Óbvio que não cobraria, eu disse a mim mesmo logo em seguida.
      - Haha! - o senhor riu bem alto erguendo os ombros e abaixando a cabeça com o lábio embicado.
      - Até amanhã – despedi-me saindo um pouco vexado.

Eu quase joguei uma moeda de cinquenta centavos dentro do chapéu, mas pensei que não seria uma boa decisão. Melhor seria eu lhe dar algo como dinheiro no dia seguinte depois de ouvir a sua música. Fui embora para minha casa.

Na manhã seguinte fui ao encontro do velhinho bem animado. A idéia que me motivava era “ajudar um senhor idoso e quiçá talentoso que a sociedade, incluindo eu mesmo, abandona no esquecimento”. Entreguei-lhe o jogo de cordas. Resolvi puxar papo enquanto ele arrumava o instrumento. “Foi você mesmo quem fez o violão?”, eu quis saber.
      - Não foi não...
      - Mmmm.
      - Foi minha mulher – respondeu-me.
      - Ah! O senhor é casado?
      - Já fui. Ela morreu há vinte e sete anos já.
      - Faz muito tempo! O senhor se lembra bem dela?
      - Com tanta clareza... - ele pareceu querer continuar dizendo alguma coisa, mas desistiu.
      - Você toca violão há quanto tempo?
      - Há muitas vidas, meu jovem amigo! Há muitas vidas!
      - Legal. Deve tocar muito bem então!
      - Só arranho. O importante é ter a vontade de fazer um som legal.
      - Saquei, saquei. Posso saber a idade do senhor?
      - Pode. É... quarenta... não, não! Sessenta e nove!
      - Bastante experiência de vida você tem.
      - Aprendi alguma coisa nessa vida vivenciando uns causos aqui e ali.
      - Imagino.

Durante aquele diálogo, com precisão nos movimentos o velho ia terminando de colocar as cordas. Fiz silêncio para deixá-lo afinar o violão, trabalho que realizou com sucesso rapidamente, como se tivesse praticado a vida inteira para efetuar aquilo com perfeição. Ele passou um olhar ligeiro em mim, começou a sorrir, tomou um pouco da água da caneca que tinha ao seu lado e posicionou o violão sobre o colo. Mexeu-se pouco, continuando sentado e recostado na parede lateral de uma loja de roupas. Desatou a tocar e cantar. Suas letras eram fortes. Ele falava de tudo um pouco, principalmente das emoções esperançosas, não construía muitas metáforas nas letras, mas as que usou eram sofisticadas no sentido quanto às rimas e à exploração das sensações. As letras eram deveras poéticas, se assim posso me expressar. Tocou com excelência cada acorde. Apreciei verdadeiramente ouvi-lo; gostei tanto que permaneci em pé por meia-hora. Depois resolvi também eu me sentar naquele chão sujo. Fiquei até quase escurecer ouvindo-o tocar e cantar incansavelmente com seus olhos fechados, como se nada mais além daquela atuação artística e vibrante existisse no universo.

Quando ele deu uma brecha, já um pouco fatigado, retirei a nota de cinquenta reais que tinha na carteira e coloquei dentro do chapéu. Estava me levantando para partir quando notei que ele espichava a cabeça, tão comicamente expressando uma caricatura de curioso. Ele soltou uma risada forçada, mas poderosa. “Meu jovem amigo! Aqui tem tanto dinheiro que me sinto rico. Vou me desculpar, mas a arte não vale só isso para quem a aprecia quando esse mesmo apreciador paga com tamanho valor. Tem tanto dinheiro aqui que eu poderia sobreviver, como tenho vivido há vinte e seis anos, sem ter que fazer mais nada na vida. Isso é até uma faísca de corrupção na palha da minha vida”, disse o velho de modo bastante carismático. “Desculpe. Não quis ofender o senhor...”, eu falei. “Não me ofendeu. Acho honrado de sua parte me dar uma quantia tão grande. É possível que você seja daqueles sujeitos muito generosos que nem se dão conta de que amanhã vão dever ao banco ou a outras pessoas. Veja bem, só estou sendo mais racional do que você agora. Eu reparei que você não possui muito dinheiro. Vive bem, é honesto e tenta ser justo, mas não tem muito dinheiro guardado e precisa gastar tudo para ter sua vida seguindo agradavelmente. É amigável, uma boa pessoa, não mede esforços para agir com presteza quando sente ser necessário. É justo. Mas é o seguinte, meu jovem amigo. Eu não tenho o costume de possuir tanto dinheiro assim de uma só vez. Não porque eu não queira, mas é mesmo por causa do contrário disso. É porque eu não quis há vinte e seis anos ter tanto dinheiro de uma só vez que hoje em dia eu nem sei como fazer para gastá-lo com bom senso. Perderia até a vontade de tocar violão e travar uma boa conversa com pessoas como você tendo essa nota preta em minha mão. Veja que mão calejada eu tenho. Não é com dinheiro no bolso que se ganha mãos assim! É o seguinte, meu jovem amigo. Este velhinho convida você pra fazer uma boquinha ali naquele boteco e beber cerveja. Topa meu convite?” Enquanto me convidava, o velho já estava em pé segurando seu saco de lona com alguns pertences e o violão.

Eu aceitei o convite imediatamente. Aquela personalidade amigável, lúcida e vívida, ainda que sofrida de muitos e impensáveis maus-tratos, fizera-se interessante para mim. Eu fiquei curioso em saber mais a respeito. Onde ele tinha nascido? Tinha filhos? Como havia perdido a esposa? Como aprendera a tocar violão? “Tudo bem. Mas eu pago a primeira rodada”, falei. “Não vou recusar nenhuma vez!”

Fomos para o boteco e lá nos sentamos à mesa. Algumas pessoas olharam de viés e à contragosto para nós, mas não me importei. A noite seria longa, percebi. E pensei também em como o acaso me surpreende a cada dia que passo vivo neste planeta.

O velho senhor me contou que descendia de uma família de classe média do interior de Minas Gerais.  Seus pais foram funcionários públicos. Não me disse a cidade, talvez nem se lembrasse mais qual era, falou apenas ter vivido em "todas as partes do planeta". Contou-me que quando criança adorava ler; lia de tudo, gibis, bíblia, poesia, literatura diversa, até mesmo artigos científicos “escritos em línguas estrangeiras” - como ele mesmo disse enfaticamente reforçando o tom da voz. Aprendeu a tocar violão e a compor desde “menino novo” e não “menino moço”, como ele diferenciou algumas vezes. Ele contava a história de sua vida com muita calma e segurança, com boa oratória, sem tropeçar nas idéias. Suas memórias pareciam ter coerência em relação às datas e aos lugares. Contou-me sobre os seis irmãos. Ele era o mais novo e só dois ainda viviam, mas não se falavam mais. Contou-me sobre a fuga da escola  que realizou aos quinze anos, que foi causa do distanciamento da família, para tocar violão pelas “cidades brasileiras com uma turma de hippies divertidos”. Quase escorreu uma lágrima quando relembrou a esposa, Brisa. Preferiu falar dela depois, interrompendo a conversa para tocar mais uma música. Àquela altura já tínhamos bebido oito garrafas de cerveja.

De repente ele encostou o violão e apoiou os cotovelos sobre a mesa. Era fácil ouvi-lo porque seu dizer era poético e envolvente,  e ele gostava de falar como se sua vida não passasse de um monólogo e eu fosse a platéia; isso me fez ver nele o comportamento de pessoas solitárias que se mantém firmes diante de suas convicções, ou princípios. Não me cansei em nenhum momento de dar-lhe toda minha atenção. Bebíamos cada vez mais depressa. Ele me olhou nos olhos e disse que ia contar um causo que só se recordava de tê-lo contado para a esposa... e para uma árvore que certa noite quis saber se ele era mesmo aquele que voltara do misterioso “lado de lá” quando aquela se pôs a ouvi-lo cantar queixosamente por não mais estar naquelas bandas. "Bandas", "lado de lá"; eu, mais interessado do que nunca em um assunto alheio embora estranho, não estava entendo nada a respeito.


 {Continua em: 2 - Viagem Cósmica}